terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Dilema

O natal de 2013 foi verdadeiramente fora do normal. Seja por qual motivo que tenha sido, minha mãe convidou meu então namorado para passar o natal junto conosco. Sei que não foi um processo natural, mas se não fosse assim, eu mesmo não teria vindo pra casa no natal. Nem preciso dizer que eu estava absurdamente nervoso com esta experiência nova.

No próprio 24 de dezembro de 2013, chegamos por volta das 20h e eu ainda tinha alguns presentes a embrulhar. Como tradição da nossa família, se alguém chega com presentes sem embrulho, vai direto para um quarto terminar o serviço antes de se reunir aos demais e não fiz diferente. Então eu percebi que quase nenhum presente meu estava pronto para ir para a base da árvore e levei um tempo colossal para terminar tudo. Quando desci já eram quase 10 da noite.

Antes de terminar, entretanto, minha mãe e irmã vieram, em momentos diferentes, pedir que abríssemos logo os presentes, pois minha sobrinha não era criada com a tradição de Papai Noel e esperar pela meia-noite e, como ela tinha apenas quase 3 anos, não se aguentava de ansiedade ao ver tantos presentes na frente dela.

O motivo é bonitinho? Pode até ser. Mas o natal era a minha festa favorita do ano todo. Eu me preparava pra ele a partir de outubro, assim que o aniversário da minha mãe passava, e 2013 não foi diferente. E em nossa família sempre ao menos uma das atividades (troca de presentes ou ceia) deve ser feita depois da meia-noite, após uma oração comandada ora pela minha avó, ora por alguém de escolha dela.

O tempo de tive de contato com outras pessoas depois que desci as escadas foi o tempo de meio copo de coca-cola, quando minha mãe e irmã, de caras amarradas por conta da minha falta de consideração de fazer uma criança esperar, iniciaram a pior troca de presentes que já presenciei na vida.

Eu não tenho filhos e torço muito para que quando os tenha, saiba que o meu mundo e o meu apenas gira em torno deles. Entretanto acharam que seria legal a minha sobrinha ser a “entregadora de presentes”. Tá. Pode até ser bonito mesmo, não fosse o fato de nem a criança mais aguentar a tarefa antes de chegar à metade e ser forçada a ir até o fim e de todos os outros presentes terem sido privados da oportunidade de entregar os próprios presentes, com um abraço e uma mensagem de felicidade.

Para tudo ficar pior, a fome de muitos de nós (inclusive a minha, o que não auxiliava em nada meu humor) já era imensa e decidiram não aguardar para iniciar a ceia. Resumo da ópera: à meia-noite de natal todos os presentes estavam entregues e a ceia terminada. O natal chegou sem oração e sem desejos de felicidades de ninguém para ninguém.

Meu então namorado trabalha em shopping e havia terminado pouquíssimas horas antes uma jornada de quase um mês inteiro sem folga e 12 horas de trabalho diárias (mais horas ainda conforme o natal se aproximava), então o acompanhei ao quarto, onde me descobri com um sono imenso e acabei dormindo.

E esta tragédia foi o natal 2013.

Em algum momento de 2014, eu avisei à minha mãe que, se este natal tivesse sequer o potencial de seguir os padrões do anterior, que não contasse com a minha presença. Eu realmente não poderia esperar que o natal 2014 fosse o natal mais diferente dos padrões até agora. Muito mais diferente até do que a tragédia anterior.

Minha avó possui uma irmã que celebra 90 anos em 25 de dezembro de 2014 e a festa será enorme. Tão grande que meu pai deu de presente à minha mãe e avó as passagens para Sergipe, onde a tal irmã mora. Mudança de ares, um bom fim para um ano tão ruim. Eu fiquei realmente feliz pelas duas.

Então coisas aconteceram.

Meu pai decidiu fazer o natal apenas para ele, eu e meu então noivo.

Minha irmã decidiu, muito bem-vinda, se unir à comemoração.

Meu relacionamento terminou depois de 15 meses de muita felicidade e 3 meses que me fizeram ansiar pelo fim.

Então ficamos assim: minha mãe e avó numa viagem que eu torço muito que elas aproveitem; eu, meu pai, minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha passando o natal juntos.

Será que eu sou realmente a única pessoa que enxerga como essa ideia é ruim?

Meus pais se separaram, pelas minhas contas, em meados de 1989. Incrível como até hoje ninguém nunca me deu uma data (mais incrível ainda como eu só percebi isso agora). Para o menino de 1 ano, não houve adaptação. Imagine como estava a cabeça da menina que fora filha única por uma década inteira e, dois anos depois, tinha que dividir tudo e não tinha mais os dois pais do lado? Será que alguém parou para enxergar essa situação por esse ângulo?

Ao longo dos quase 27 anos que se passaram, 3 relacionamentos irmã/irmão de desenvolveram: 1. Eu e minha irmã sozinhos, onde não há segredos, nem mágoas, nem ressentimentos; 2. Eu, minha irmã e minha mãe, que era o mais constante dos anos 90 e metade dos anos 2000, que envolvia uma menina que via as diferenças de criação entre o primeiro e o segundo filho acontecerem perante os olhos dela diariamente, mais uma vez pelo pior ângulo de todos. Hoje ela deseja um segundo filho e já começa a compreender as atitudes da minha mãe ao reconhecer que há certas coisas que ela jamais faria de novo criando outro filho. E, por fim, 3. Eu, minha irmã e meu pai. E este daí foi sempre o pior de todos. Passando rápido pelo fato do meu pai só começar a ser presente na minha vida em agosto/2014, dá pra perceber que a minha visão de pai é muito diferente dela, o que altera sempre o comportamento nas poucas vezes que ele está por perto.

Além disso, lógico, existe ainda a minha relação com a minha mãe apenas, com meu pai apenas e com meu pai e minha mãe juntos. Esta última sempre me deu a impressão de que o mundo pode cair, mas estou seguro.

Eu nasci em 1988. As 5 crianças da família são de 1977, 1977, 1980, 1982 e 1988. A criança seguinte é de 2011. Logo após meu nascimento todos os casamentos ruíram e cada um foi para o seu lado. Eu não cresci junto da família toda. Não faço ideia do que é amor de primo. Meu primo mais velho, que inclusive é meu padrinho, foi tão distante quanto meu próprio pai. Motivos sensatos com os quais eu concordo à parte, não é nada legal. Eu sou excluído da família toda como resultado lógico dos acontecimentos da época.

Então chegamos ao natal de 2014 e a única circunstância na qual de fato me sinto mal por não ter meu ex comigo. Deu para entender?

Eu tinha companhia caso tudo ruísse. Tinha. Agora me vi sozinho numa situação que quase 27 anos de existência me provaram vez atrás de outra que é ruim, que eu vou sair machucado. Junte tudo: a relação irmã-pai-irmão, o fato de que dessa vez eu não tenho nada mais, seja mãe, avó, namorado ou até mesmo espaço físico para ficar retraído caso necessário for e a experiência causada no último natal exatamente pelo comportamento da minha irmã. A cada vez que penso nisso, uma luz vermelha gigantesca começa a piscar na minha frente.

Seria fácil ficar em casa, não? Afinal é a única coisa que eu realmente desejo fazer. O problema todo é o que disse mais acima: pela primeira vez na minha vida meu pai de fato está se mantendo constante no interesse em se aproximar de mim. Sei que seis meses nada são, mas é muito mais do que ele jamais conseguiu. E eu sou a criança basicamente retirada da família, que foi ensinada várias e várias vezes a não precisar da companhia de ninguém. Sinto muito se isso decepciona alguém, mas mesmo com todas as minhas reservas, está sendo muito legal ter um pai além de mãe, avó e irmã.

Pouco mais de um mês atrás eu fui almoçar sozinho na casa do meu pai. Ele percebeu que foi a primeira vez que ele fazia almoço somente para mim e em determinado momento se viu às beiras das lágrimas de gratidão, gritando para os céus que tolo é aquele que acha que é tarde demais e, a cada dois segundos, dizendo como estava grato pela oportunidade que finalmente aparecera.

E então eu viro o monstro. O mais sensato a fazer é ficar em casa. Mas como fazer isso e ser eu a cortar com tanta violência o laço que ele finalmente está tendo força para manter atado?

Como ir até lá? Sabendo que serei incapaz de ficar tranquilo, sabendo que ficarei cada instante numa defensiva nociva? E aqui o tempo de convívio me mostra exatamente o que vai acontecer:

1. Meu pai vai notar que não estou feliz e vai me questionar. Eu, entretanto, não terei coragem de contar o que se passa ou, se tiver, ele vai dizer que é só tirar isso da cabeça, como se eu já não estivesse tentando fazer isso;
2. Eu vou ficar com raiva de mim mesmo pelo fracasso, o que vai me deixar com uma expressão pior ainda da que estarei;
3. Ele vai saber que é inútil insistir comigo e vai levar a sua insatisfação à única outra pessoa que falaria comigo: minha irmã;
4. Ela virá falar comigo como se eu tivesse a obrigação de ficar feliz;
5. Eu vou me sentir pior ainda e vou desejar mais do que nunca, muito mais do que agora, não estar lá, correndo o enorme risco de acabar não só com o meu natal que já está acabado mesmo, mas com o de outras pessoas que tanto se empenharam.

Então estou neste impasse há semanas. Tenho poucas horas para decidir e não faço ideia de que passo dar. Parece que, não importa o que eu faça, todos saem magoados, principalmente eu e meu pai. E que forma mais ingrata de reconhecer todo o esforço que ele teve para este natal?

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"And if you worry about me, I’m okay. Yes, I am."

sábado, 14 de junho de 2014

Talvez eu seja apenas invejoso.

Talvez o que me faz sentir mal a cada instante é ver como, por mais que seja apenas fachada (jamais saberei), as outras pessoas têm o que mostrar. Eu sei que é feio sentir isso e uma parte de mim espera algum tipo de redenção por conseguir assumir.

A cada ovo de páscoa postado eu me sentia mais inferiorizado. A cada presente de dia dos namorados, a cada lembrança de afeto. A cada mostra de que é, sim, possível ter tudo o que quero e eu não tenho. Não desejo que quem tem deixe de ter, apenas me sinto (muito) mal por não ter. Isso é inveja? Eu acho que é.

Os pensamentos gritam na minha cabeça e o maior esforço de todos é fazer com que alguém ouça. O anonimato não me faz bem. A solidão, muito menos. Chame da fraqueza que quiser, mas me faz mal cada lágrima isolada, cada angústia que ninguém enxerga, cada dor que eu aprendi a esconder tão bem simplesmente por ninguém ter nada a ver com isso e o problema é meu.

Eu queria ser prioridade. É pedir muito(?).

Eu queria que tudo isso acabasse de uma vez e eu voltasse a ser normal, apenas com alegrias e tristezas, sem nuances tão fortes e impactantes que acabam com a pouca luz que me resta.

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"Why are you at my side? How can I be any use to you now?"

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Isso me irrita

Eu ando ficando mais impaciente.

Na verdade, impaciente sempre fui; acho que estou ficando mais atento. Mais atento às pessoas ao meu redor e como a pseudo-vida me irrita.

Pessoas que se agarram a um mero instante alegre para tentarem esfregar na cara dos outros que são felizes, achando que vão incomodar alguém. As infelizes são elas. 

Pessoas com regras demais me irritam. "Só namoro depois de seis meses, só caso depois de três anos, só trepo depois do padre me declarar marido". Mando todos tomarem no cu. 

"Todos estão destruindo o diário, vou comprar um, mas só vou fazer coisas bonitinhas". Vá à merda.

"Aaaain, não fala assim dela. Você não sabe o que ela passou". Foda-se. Nem você sabe.

No fim do dia só quem fica com nossas decisões somos nós mesmos. E nosso travesseiro.

"Aaaain".... já me irritou daí.

Sempre gostei de ser "the real thing". Sem churumelas, sem choro nem vela. Sou o que sou e sou de fato. Posso ser educado ou não, feliz ou não, mas sou sempre eu mesmo. Quem não é me enjoa.

Eu xingo pra caralho. Dizem que são os mais honestos. Não sei se há algum fundamento, mas eu concordo. Principalmente com a ideia.

"Isso é feio". Foda-se.

Meu noivo (sim, estou noivo antes de completar um ano, julguem e verão que não estou nem aí) já me ouviu xingar muito, mas jamais ouviu um xingamento para ele. Isso se chama respeito.

Respeito de fato. Admitir com tranquilidade que cada indivíduo possui seu único manual de instruções. O que funciona no siclano nem cola em mim. E vice-versa.

Me perguntam quando vou tirar minha carteira de motorista. O trânsito já me irrita no banco do passageiro. O infeliz quer andar como se pagasse 3 IPVAs, não dá uma brecha e está a 40km/h. Prefiro andar de ônibus, onde posso olhar para o outro lado. Sei que serei o tipo de motorista que vai por a cabeça pra fora da janela e mandar o filho da puta ou fuder ou sair de cima, pois ele está atrapalhando os outros.

Prefiro ser honesto comigo mesmo e continuar de ônibus e um táxi às vezes.

Reconheço pessoas vazias a distância. Gosto de garantir que permaneçam distantes.

Frases prontas, poluição da internet, mensagens brilhantes com gatos que me desejam uma terça-feira feliz.

Como já postei antes, é tanto unfollow que daqui a pouco não sobra ninguém pra ver no Facebook.

Seja você mesmo. Apenas seja e não se preocupe em ser.

"Express yourself, don't repress yoursefl".

sábado, 10 de maio de 2014

Tudo vira passado. Temos que ser gratos.

Às vezes você muda a vida de alguém.

Às vezes só a sua presença altera o curso de outra pessoa e ela jamais será a mesma.

A parte mais curiosa é que eu estava tentando mudar a minha própria vida. E todas as mudanças impactantes e visíveis ficaram para as outras pessoas. A mim ficaram as mudanças da alma, o crescimento interno que poucos enxergam, mas eu vejo a cada instante. Não sei mais ver o mundo com os olhos de antigamente. Perdoo mais fácil, magoo mais difícil, seja a mim mesmo ou a outros. Importo menos.

Faz um ano que voltei. Ontem me perguntaram se já me estabilizei. Achei uma pergunta curiosa.

Dizem que o perdão traz alegria. Ou ainda que a vingança traz a satisfação. Acredito nos dois.

Estou honestamente feliz que pude mudar uma vida de forma tão boa. Que ele conheceu pessoas que, embora contatos meus, preferiram ele a mim. Nada mais natural. Com ele bebiam juntos e riem o tempo todo. A mim devem dinheiro.

A pior parte agora é ver que se tratará sempre de um singular. E eu descobri por terceiros. Repito, perdoo mais fácil. Importo menos.

Foi um ano difícil e faz um ano que acabou. O tempo se encarrega de deixar tudo cada vez mais longe e somente as lembranças mais doces (ou as mais absurdas, nos futuros momentos de distração) hão de sobreviver.

Eu achava que se tratava de vingança, saber que serei sempre a origem da vida que ele agora leva. Agora sei que se trata de perdão. Sem perdedores, apenas dois vencedores em vitórias distintas e bem separadas.

Colho meus frutos com a ajuda de amigos que me fazem enxergar os frutos que tenho. Existe colheita melhor?

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The light that you can never see, it shines inside, you can't take that from me.