sábado, 14 de dezembro de 2013

It's easier, I'm sorry.

Some nights are harder than others.

I think that every single grown up person on this planet has said this at least once in their lives.

Sometimes breathing is harder. Feeling is harder. Loving, being, living, handling yourself, surviving, wanting to survive, all these are harder.

I first considered taking myself away from this world about two years ago.

I never thought of methods, especially because I know I would never have the guts.

But I keep thinking of the differences.

None.

No positive outcome and I'd even destroy the life of at least 4 people. I think it's 4.

So, that's what keeps me alive.

I haven't existed in a long time.

I haven't been out. I haven't seen a movie. I haven't attended a concert. I haven't been to a restaurant. I haven't visited the shops I love just to be inside of them.

I killed my life when I left Rio. I don't know how to give me a new one.

I have shopped, though.

More than I should.

It should be easy. It shouldn't be complicated. It should, but isn't.

I still have no clue.

Will I ever do?

sábado, 2 de novembro de 2013

Das lembranças e dos desejos

Que coisa estranha é essa de ser pai. Quando é que somos pais? E como escolhemos um pai? Eu nunca consegui associar aquela ideia do super herói que não tem medo de nada e qie sempre estaria ali para garantir que eu fosse o menino mais feliz do mundo a um pai.

Figuras paternas são, no mínimo, uma aversão na minha vida. A vida me deu três e se tem algo em comum entre eles é que nenhum dos três deveria ter procriado.

Vamos ao mais óbvio e mais obtuso de todos: o original e biológico. Eternamente apaixonado por sua ex esposa e babão por sua princesa, nunca...

Às vezes eu acho que nasci de intruso.

Uma vez eu li que os dois maiores momentos da nossa vida são quando a gente nasce e quando a gente descobre a finalidade.

O segundo deles é a minha maior relação de amor e ódio, e eu não sei definir como está agora.

Então sobra você, que achou legal ser meu pai aos olhos de Deus quando tinha apenas 10 anos. Não passou pela cabeça de ninguém que você estava entrando na adolescência e o que menos queria era um menino que te idolatrava na sua cola. Totalmente compreensível.

Você me deu um presente no meu décimo-quarto aniversário e parece que nada mais importava. Eu ainda achava você o cara mais legal do mundo.

Eu te vi em março desse ano depois de 4 anos do nosso último contato. E em 2 dias você será pai.

Por favor, seja um bom pai.

"Don't play with something you should cherish for life".

domingo, 11 de agosto de 2013

Eu o amo. Ele me odeia. Até quando?

Eu sempre amei meus aniversários. Acho que essa é definitivamente a pior, mais dolorosa, mais absurdamente longa e menos correspondida relação que eu já tive/tenho. A pior parte é que a grande filosofia de vida de aprender com os próprios erros parece que em nada se aplica a este caso. Venho desde o 22º dizendo para mim mesmo que o segredo é não ter expectativa alguma e agradecer o que ocorrer. Então vamos na ordem?

Eu nunca de fato tive um grande aniversário, mas nunca fiz tanta questão. É bem verdade que as comemorações enquanto terminava minha infância e começava minha adolescência deixaram bem claro o quanto eu era desprovido de qualquer contato social e afirmaram que os anos escolares seriam de longe os piores neste aspecto, mas isso nunca me atrapalhou em ficar feliz.

Entenda que a relação de amor de mim para meus aniversários e de ódio dos meus aniversários para mim não tem aparentemente nada a ver com o fato de estar envelhecendo e todo o grande e intragável desafio que tanto aparece na minha cabeça. A questão é simplesmente o poder que uma data pela qual eu tenho tanto carinho consegue sempre me dar um golpe maior a cada ano.

Aos 17 eu tive a minha segunda "festa" de aniversário. Um belo painel acompanhado de toda uma decoração e até hoje o meu aniversário favorito. Por ironia o último bom. Então voltemos à ordem.

26 de fevereiro de...

2006 - 18º aniversário num domingo de carnaval - o que pedia para ser a maior festa que eu já vi acabou se tornando um dia no Barra Shopping indo ao cinema. Destaque para o esforço magnífico da minha mãe e da minha avó em garantir que eu gostasse do dia. Eu até gostei. Mas se não fosse o bolo que nós 3 comemos sozinhos em casa ao retornar, nada mudaria de um domingo qualquer no shopping.

2007 - Várias vezes minha irmã não passou meu aniversário comigo por ser carnaval e ela estar viajando com o namorado. Mas não era carnaval. Foi meu primeiro aniversário depois que ela se casou. 3 meses separaram as duas datas. Uma briga dela com minha mãe por telefone foi o motivo da decisão de não aparecer. Ela tinha algum dinheiro para dar à minha mãe pelo pagamento de sabe-se lá o que. Então fui eu encarar ônibus e engarrafamento para ir ao centro buscar o valor e aproveitar a oportunidade para que ela me visse. Uma lembrança feliz: minha mãe comprou vários presentes e os espalhou pela casa toda e eu tive que catá-los.

2008 - 2 décadas completas e eu me sentia o "adulto". De longe foi o aniversário mais "social" que eu tive, com comemoração surpresa no trabalho e até no grupo da igreja. Por outro lado a minha falta de talento para reunir os parentes com quem me importava no dia do meu aniversário foi tanta que eu tive um total de 6 comemorações. Não me pergunte o motivo, mas não consigo considerar isso positivo. Foi a última vez que tive um bolo de aniversário. E não até o último mês eu percebi ou me importei com isso.

2009 - Má colocação de datas e eventos. Foi uma noite na verdade bem agradável, não fosse ter sido o mesmo dia que minha mãe percebeu que o filho dela não ia voltar pro armário. Enquanto todos se divertiam numa bela noite no Porcão (a única vez que fui lá), nada na verdade tinha graça.

2010 - Quem diria, eu voltaria a namorar uma mulher. Ao menos serviu para que todos vissem que namorar uma mulher definitivamente não é o segredo para minha felicidade. Estar com ela atrapalhou simplesmente todos os planos que eu tive para aquele dia, mantendo afastado até algumas amigas de coração que preferiram não ir a me causar brigas subsequentes por ciúmes. Lembrança feliz: minha mãe vendo mais um aniversário sendo arruinado, mais uma vez compensou no presente.

2011 - Fazer 23 anos e perceber que não se é mais tão jovem assim quanto já fui um dia foi o de menos. Eu tinha um relacionamento estável e era completamente apaixonado. Dividi o dia em 2 partes: um almoço em família e um jantar com teatro com namorado. Teria tudo sido simplesmente perfeito, não fosse a minha incrível habilidade de interpretar a reação a mim daqueles ao meu redor. Ali no teatro eu soube, mesmo sem nada dito ou feito: ele não me amava mais. Levei o quanto pude e consegui lutar por mais cinco meses. De qualquer forma, mais um aniversário que por fora estava maravilhoso, mas dentro do peito estava tudo desmoronado.

2012 - Brinquei com todos que podia que tinha um ano pra "aviadar" de vez e chegar à minha forma final. O último dia de carnaval e dia seguinte da festa de 1 ano da minha sobrinha. Eu tinha feito um belo dum cheesecake (não vale como bolo de aniversário, principalmente por eu mesmo tê-lo feito) na véspera antes de ir pra festa. Churrasco em casa com todos absurdamente cansados e à noite fui ver o cara com quem estava saindo pelos dois últimos meses. Aniversário com acompanhante num apartamento vazio deveria significar horas de sexo selvagem, mas o meu plano estava ameaçado pela frase "transei com dois caras durante a semana, dei pra um deles e estou ainda meio ardido". Cara, na boa, era meu aniversário. Eu precisava mesmo ouvir isso? Era a porra do meu aniversário, caralho! Foda-se que eu não era teu namorado, seu merda. Você tinha ao menos a obrigação de ser sensato, seu viadinho escroto. Fiz minha parte muito bem, banquei o compreensivo e que o perdoava. O fiz chorar de arrependimento. Nunca fui ativo com tanta agressividade na minha vida. saí de lá no dia seguinte cantando "Smile". Nunca mais o vi. Hoje ele namora e com frequência curte postagens aleatórias minhas e faz comentários de múltiplos sentidos. Estou a um passo de mandá-lo lamber uma boceta.

2013 - Nada como aprender a maior lição de vida este ano: "É na dificuldade que vemos quem realmente gosta da gente". Meu ex decidiu ficar a manhã comigo, já que não havia conseguido folga no trabalho. Ele dormiu a manhã toda e ainda brigou comigo por ter tentado acordá-lo para aproveitar a manhã. Como sempre confundiu ficar junto com sexo e com um berro de "não vou transar hoje" (como se ele transasse algum dia), virou pro lado e dormiu. Foi trabalhar e fiquei em casa a 1600km de distância de quem amava de verdade. Fui a um rodízio japonês só para dizer que fiz alguma coisa. Foi de longe o pior aniversário que já tive, a cada segundo dele.

Desde 1995 eu sonho com meu aniversário de 2014. Farei 26 anos dia 26 e sempre esperei por isso. Só de pensar eu fico feliz. Acho que já deveria ter aprendido, não?

"I wanna be big and let go of this grudge that's grown old."

domingo, 2 de junho de 2013

Sobre o presente que eu não vejo a hora de se tornar passado.

Acho que, ao fim de tudo isso, a maior lição que eu vou tirar é de não perguntar como alguém está ao vê-lo (a) triste. Oferecer ajuda e estar de prontidão sempre, mas não fazer com que a pessoa reviva tudo que aconteceu para tirá-la tão gravemente de seu eixo.

Entendo a curiosidade. Sei que os verdadeiros amigos acham que sabendo da história poderão ajudar melhor, mas não ter um instante de folga mental é complicado.

Então vamos a tudo na ordem devida e vamos começar no dia que eu achei que já tinha ido até onde podia e era hora de ir embora. Isso foi em 12/06/2012, exato um mês antes do meu último dia de trabalho no semestre. Por conta da amizade e da valorização eu fui impedido de fazer valer minha vontade e aprendi naquele dia o poder da confirmação de ideias positivas.

Tive uma "última tentativa" de encontrar quem me fizesse bem e, se naquele dia falhasse, estava pronto para passar um bom tempo sem tentar nada. Acabei encontrando e entrando num ritmo de decisões que me colocaram, em 25/07/2012, "casado", promovido e transferido para um lugar onde jamais sequer havia pisado.

Espero que você tenha notado o espaço de tempo e veja que não chega nem perto de 2 meses entre o primeiro contato e o "casamento". Eu já havia feito isso antes da pior forma possível e não entendi como foi que acabei por contradizer meu maior princípio.

Para que você entenda meu motivo maior, eu sou um homem que acredita que meu futuro está ao lado de outro, na nossa casa, construindo a nossa vida. Embora hoje eu esteja com mais calma do que nunca, eu nunca deixei de acreditar nisso e, por tal motivo, continuo sempre tentando.

Por favor, não me perguntem como foi meu período de adaptação, pois eu não tive direito a ele. Desembarquei às 22:00 e 10 horas depois eu já estava trabalhando. Foi determinado o meu "poder" na empresa e começou o trabalho pesado. Frustrações como alunos que rejeitavam ter regras (como não poder mais pagar no cartão de crédito a parcela do curso ou o novo sistema de boletos, similar aos das faculdades, que cedem a bolsa de desconto somente se pago no vencimento) vieram acompanhadas de sucessos do tipo ter a dívida mensal da empresa liquidada no terceiro mês, ou ainda ter escolhido professores que caíram nas graças dos alunos, pois eles haviam sido bem selecionados e bem treinados.

Mas eu era um péssimo funcionário. Meu horário das 9:00 às 21:00 com uma hora de almoço nunca foi cumprido! Eu sempre chegava 9:08. Estava sempre absurdamente atrasado. Também me atrasava para ir embora, muitas vezes fechando a escola somente às 22:00 para terminar alguma coisa. Isso sem contar as absurdas vezes em que eu ousei trabalhar o dia inteiro e atropelei minha hora de almoço.

Mas eu era um funcionário pior ainda que isso! Eu fiquei mais de duas semanas sem fazer nenhuma ação comercial externa! Mas fiz pior!!! Quando eu fui fazer, ousei me ausentar da escola e não ver o que acontecia o tempo todo!

Acho que ainda não expliquei o tipo de pior funcionário do mundo que eu era. Como combinado antes da minha chegada, eu reportava cada acontecimento à minha chefe no Rio. Eu expus a ela os problemas infinitos que a escola tinha. Fiz pior! No dia que meu armário desmontou e quase rasgou a minha mão e meu então companheiro me incumbiu de reparar o objeto, a minha entrada apenas às 14h foi um verdadeiro ultraje.

Isso sem mencionar os 2 dias que eu tirei de folga para ir ver o show da Madonna depois de ter trabalhado 9 dias seguidos.

E não vamos esquecer a cereja do bolo: eu deixava meu terno guardado na minha sala e ia trabalhar com camisa de malha e calça jeans. Eu era realmente um funcionário que envergonhava a empresa ao não ficar 12 horas por dia dentro de um terno enfiado numa sala onde ninguém me via.

Por isso eu fiz por merecer ter meu salário cortado pela metade na virada do ano. Eu mereci ser ludibriado a continuar trabalhando 12 horas por dia, mesmo meu horário sendo de apenas 8. Afinal,  quando eu entrei às 8 e, sem hora de almoço, eu saí às 16, eu larguei a escola no meio do meu horário. Ai de mim que achava que 8+8=16 e fui embora! Eu fiz por merecer perder controle sobre as minhas contas e ser cada vez mais menosprezado dentro da empresa. Eu fiz por onde ficar sem telefone, sem internet, sem as compras que eu gostava, sem ir a lugar algum somente para manter em dia meu aluguel e o supermercado.

Quando eu achei que já havia sido punido o bastante por todas as minhas ofensas graves contra a saúde da empresa (afinal que gerente é esse que deixa o terno no escritório ao invés de andar com ele dentro do ônibus?) eu criei coragem e encarei a dificuldade num nível ainda mais extremo e abri mão da metade que ainda me restava.

Da mesma amizade que me impediu de sair da empresa em junho, que me ajudou a cada instante onde tudo apertava, veio a frase que me fez ver que eu tinha um cadáver dentro de casa: o meu relacionamento.

"É na dificuldade que a gente vê quem gosta da gente". E foi na dificuldade que o carinho e companheirismo deram lugar à frieza e exigência. Eu tinha um ser agonizante em constante contato comigo e eu fiz a única coisa que poderia me salvar: eu dei o tiro final.

Levei minha crueldade ao máximo, exigindo que ele simplesmente arrumasse tudo que tinha e se retirasse. Reconheci meu exagero, mas ainda fiz valer minha vontade. Você pode dizer que eu não tenho coração, mas o que eu não tinha era coragem para dividir um teto com quem só me dizia "bom dia", "boa tarde", "boa noite".

No dia que ele foi embora eu sentia o meu rosto pesado. A falta da sensação da aliança no meu dedo ainda me persegue e eu pondero seriamente passar a usar anéis só por esta parte. Sim, sinto falta de um círculo de aço no meu dedo, mas não da pessoa que o colocou lá. E essa ideia não me incomoda nem um pouco.

Já no dia 09/05/2013 minha mãe chega a Goiânia com uma Kombi alugada para colocarmos tudo que eu tenho que podia trazer (voltagens sendo diferentes, eu só teimei em trazer o meu ventilador, que ela ainda vai trocar a voltagem :D) e quando eu achei que estava acabando, minha inexperiência com imobiliárias me trouxe problemas que eu jamais sonharia em ter e que eu estou o tempo todo pensando em como resolver.

Não voltei sem emprego, mas meu psicológico me trava mais do que eu achei que ele tinha esse poder. Passei os quase 6 anos da minha vida profissional me esforçando ao máximo pra ser sempre o melhor que posso e este profissional nunca fora tão magoado sem explicações sensatas. Simplesmente não consigo voltar pra mesma empresa. Estou magoado além da minha própria compreensão. E não sei como encarar isso.

"Where do we go from here? This isn't where we intended to be".

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De qualquer forma estou esperançoso. Amigos novos e sentimentos puros e leves daqueles que já havia me esquecido estão me encontrando de novo. Eu quero aproveitar isso. O mais legal é que estou sabendo simplesmente tratar isso como uma nova página e não uma ponte. Não é que a gente de fato amadurece?

"If I ain't got nothing, I don't give a damn". - "Well, baby, now you do".

sábado, 23 de março de 2013

Confiança

Uma vez à toa ela me chama e diz "não conta pra ninguém, mas minha menstruação tá atrasada mais de um mês e eu já estou pra perder o segundo ciclo". Minha resposta foi o motivo de ter sido procurado em "segunda-mão":

- Não crie uma expectativa que vai te magoar se não acontecer. Não pense em nada, espere amanhecer e compre um teste de farmácia e faça um exame de sangue.

Três dias depois eu descobri que seria tio.

A família inteira vibrou de expectativa. Afinal era a primeira criança que nasceria depois de mim, e nós estamos falando de um intervalo de vinte e três anos.

Todos vibravam, menos eu. Por favor, não pense que eu não estava empolgado. Eu adoraria estar, mas eu não podia.

Entenda: eu fui procurado em "segunda-mão", pois apenas o marido dela sabia que seria pai antes que eu soubesse e, por mais amor e confiança e respeito que você possa imaginar ser o motivo, o que de fato levou a tal acontecimento foi simples:

"Eu te contei porque eu sabia que você ia ser racional e eu precisava disso mais do que a alegria da possibilidade."

Então eu precisei ser racional. Primeira gravidez aos 33 anos com considerável sobre-peso e condições cardíacas nada favoráveis. No meio disso tudo estava a pessoa que eu mataria para defender.

Eu sempre cumpri minha parte. Fui o primeiro a comprar presente, até mesmo antes da própria gestante (baby hug-a-bible e My First English Dictionary) e mandei o trabalho pro espaço no dia que ela nasceu para ir ao hospital. Mas eu não podia perder o foco. Eu não podia deixar transparecer toda a preocupação que me consumia a cada instante.

Ela nasceu antes da hora, por falência da pressão uterina. Nenhuma complicação ou sequela para nenhuma das duas, mas nove meses de expectativa me foram roubados e me afastaram do restante da família, que preferia não entender por que aparentemente eu não estava empolgado em ter uma sobrinha. Claro que eu estava. E ouvir isso só piorava tudo.

A compensação não tardou a chegar. Ela tem por mim um carinho que foi passado pelo sangue dentro do útero, isso sem contar o talento para ser anti-social e irritante ao corrigir todos ao redor (isso sem contar que os olhos estão ficando cada dia mais parecidos com os meus!). A alegria me invade toda vez que ela estende os braços pra mim, mas falta algo.

E vai faltar sempre, mas não tem problema. Foi por uma boa causa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre ainda ser Potterhead


Era uma vez uma quinta-feira qualquer em maio de 2009 (de acordo com o calendário ou era 7, 14, 21 ou 28) quando eu estava dando a pior aula da minha vida.

Eu não fazia ideia nem de qual deveria ser meu próximo passo em sala e, para minha enorme sorte, eu fui assistido pela coordenadora. Nunca duvidei da Lei de Murphy e aquele dia não seria diferente.

Junte TODAS as broncas que já levei da minha mãe e nem assim você vai chegar perto da hora que sucedeu aquela aula. Não lembro de tudo, mas estas frases ainda estão na minha cabeça quatro anos depois:

Você me pede pra te dar nível avançado, mas me prova que é incapaz de dar aula até pro básico”.

Eu não vou ter professor que não prepara aula na minha escola”.

Você já tem 21 anos. O menininho adolescente fã de Harry Potter tem que ficar pra trás”.

Então o marido dela, cansado por estar no trabalho mais de uma hora além do que deveria nos interrompeu para obrigá-la a fechar a escola e eu fui pra casa.

No dia seguinte, sexta-feita, eu não trabalhava (apenas uma das infinitas vantagens de ser professor em curso) e tudo o que havia ouvido perfurava minha mente de uma forma que eu não aguentava. Então eu precisava do meu melhor passatempo. Onde fui parar? Óbvio, dentro da Saraiva do Barra Shopping.

Eu sou tinhoso, confesso. Saí de casa com meu casaco de moletom preto com um enorme logotipo de “Harry Potter e o Cálice de Fogo” estampado no peito. Rodei dentro do Music Hall da Saraiva sem nem notar o que estava fazendo ou olhando pensando em tudo que havia ouvido e enxergando à minha frente a necessidade de ser realmente mais responsável. Fiquei tanto tempo andando em círculos que, se não fosse um cliente costumeiro da loja, já teria despertado a atenção dos seguranças.

Então eu decidi que seria o melhor professor que a coordenadora já havia contratado, mas eu não podia dar o braço a torcer daquela forma e aceitar simplesmente tudo que ela havia dito. Comprei o que estava na minha mão e fui correndo pra casa. Preparei a melhor aula da minha vida e não havia nada que pudesse dar errado dali pra frente. Mas uma decisão eu tomei naquele dia: eu jamais deixaria aquele Raphael pra trás.

Na manhã de sábado lá estava eu, pontualmente dentro de sala, feliz e sorridente com a minha turma. Sem nenhuma surpresa, eu fui assistido de novo. Dei, de fato, a melhor aula que ela já viu. Ao longo de três anos e meio eu fui realmente seu melhor professor.

Durante aquela aula, lá estava eu com o mesmo moletom de Harry Potter e o Cálice de Fogo.

25

E então a gente faz 25.

É estranho, não é? A gente não é adolescente faz tempo, mas ainda não é exatamente adulto. Estou nesse meio do caminho que não consigo entender direito, onde ainda posso dizer que tenho a vida toda pela frente, mas já tenho uma coleção considerável de memórias que me trazem tanto alegria quanto arrependimento.

A aceitação de que tudo tem um fim bate com uma força inexplicável. Os ataques de pânico toda vez que penso que irei um dia fechar os olhos para nunca mais abri-los (espero poder fechá-los) e deixar para trás tudo pelo qual já lutei se cessaram imediatamente simplesmente porque eu já não sou mais tão jovem.

E é isso que faz a diferença, certo? Por mais no meio que esteja, estou mais perto de fazer 30 anos do que estou do dia que fiz 20 e eu tenho certeza que a indiferença ou pavor que você está sentindo agora vai depender da sua idade.

Como é curioso o que um número pode fazer com a sua cabeça.

Tão curioso que precisei de mais de dez minutos para passar da frase acima.

Nosso cérebro precisa acreditar em algo. O senso de propósito é o que nos dá força para continuar dia após dia. Vejo o sol nascer pela janela agora e isso me põe a pensar. A pior pergunta que aprendemos na nossa vida é “pra que?”.

Note que não é por que. Não nos mata querer encontrar um motivo em alguma ação, isso nos impulsiona. Mas quando nos indagamos sobre a finalidade de nossos atos, aceite este conselho, é bom você encontrar uma logo.

Ou às vezes o que a gente precisa é realmente não encontrar nenhuma. Só assim teremos força para saber que precisamos ir em frente. “Pra que estou em Goiânia?” Sim, eu sei a resposta, por isso ainda estou aqui. “Pra que eu me submetia ao emprego que eu tinha?” Nunca encontrei um propósito e, quando nem a wi-fi grátis era motivo pra continuar, eu encarei o nada, pois como diz Madonna “não tenho medo do que vou enfrentar, mas tenho medo de ficar”.

Até o dia que fiz 25, minha vida foi completa de mudanças de todos os tipos. A cada aniversário eu era uma pessoa diferente. Não sei se esta fase já acabou (acho que nunca acaba), mas eu nem sequer tento imaginar como será meu 26º aniversário.

De uma coisa eu sei: eu espero por ele desde que tinha 7 anos, afinal vou fazer 26 anos no dia 26 e isso deixa a criança dentro de mim bastante feliz!

16 anos esperando por hoje. E eu tive insônia!

Desde quando comecei a lecionar a língua inglesa eu soube que uma boa escola era aquela que dava total atenção a suas crianças. A criança se fideliza mais do que qualquer adulto e ela vai ficar na sua escola por mais tempo.

E eu sempre tive minha própria experiência para afirmar tal teoria. Já se vão dezesseis anos do dia que eu entrei na minha escola de inglês pela primeira vez e já são onze desde quando deixei de ser aluno e ainda assim eu consigo fechar os olhos e andar por dentro dos dois andares dela sem perder nenhum detalhe.

As portas que imitavam madeira corrida e o mesmo material que era usado nos armários dentro da enorme recepção. Cada lasca do compensado que estava faltando e os detalhes sempre intrigantes das pequenas placas com os números das salas em cada porta. Da 201 à 212, eu fiz questão de entrar em cada uma delas ao menos uma vez. Do chão com carpete no meu primeiro semestre às mesas altíssimas do professor, onde ficava aquele pequeno Lesson Plan que eu sonhava em poder olhar.

Todas as infinitas tardes que eu passava dentro da escola, passando semanalmente umas vinte vezes mais tempo do que minhas aulas exigiam de mim, nunca me escaparam da cabeça. Ninguém conseguia entender o que para mim era completamente óbvio. Logicamente eu jamais tive coragem para dizer em voz alta, mas foi a primeira vez na vida que tive algum tipo de contato social positivo. E eu precisei de muitos anos para conseguir isso.

Guardo lá dentro minha primeira paixonite (eternamente registrada com a imagem daquela época, pois já nos encontramos uns cinco anos atrás e senti toda aquela primavera se murchando dentro de mim como uma invasão de dementadores, de tanto estrago que o tempo havia feito àquele rosto tão belo) e os meus primeiros sucessos. Guardo o nome de todos os professores (mas isso não é vantagem, acho que lembro o nome de todos os professores em qualquer lugar, exceto, talvez, na faculdade) e da equipe que tão bem me tratava.

Guardo a frustração de ser educadamente barrado por não ser mais aluno e de não direcionar a eles a culpa e o ressentimento, mas sim àquele que, mais uma vez, havia falhado comigo. Lembro da  inveja que me corrompia diariamente a ver meus colegas na escola que ainda eram alunos com seus livros e me oferecia, sem nem pensar duas vezes, a fazer todos os seus deveres de casa, apenas para ter contato mais direto com o material mais uma vez.

Guardo a passagem do tempo, que trouxe a minha persistência e frustração em tentar voltar ao ser impedido de ingressar o nível que desejava (e tinha nível) pela única pessoa lá dentro que eu realmente nunca gostei. Tentei mais uma vez dois anos depois, já como professor, mas fui barrado mais uma vez (pela mesma pessoa. Adorável, não?)

Era adorável ver como eu estava longe de ser o único. A aula começava às sete? Alunos de três ou quatro turmas já estavam presentes às quatro e todos conversavam como um grupo só. Se fosse dia de prova oral então, pode apostar que tinha gente lá às três, estudando feito doidos e marcando o lugar na fila para ser o primeiro e ir embora assim que possível (que ironia). Foram os dois anos e meio mais felizes de uma fase que é tão difícil para tantas pessoas.

E aqui estou, finalmente de volta a este universo que tanto me encanta. Não exatamente de volta, pois moro a 1.600km de distância e estou entrando em outra unidade. O curso infantil e juvenil, mantido intacto por mais de 40 anos, finalmente fora reformulado e aos poucos está sendo substituído. Graças a Deus eu tenho a chance de lecionar um livro que sempre sonhei ter na mão. E ele ainda é o mesmo de sempre, começando na lição 109 e terminando na 120. Os novos não possuem mais esta sequência enorme da 1 a 156, cada um começa na 1 e termina na 12, mas isso não tem problema. Está tudo lá como sempre foi. A diferença agora é que eu dependo apenas de mim mesmo para ficar. E não pretendo sair.