E
eu sempre tive minha própria experiência para afirmar tal teoria. Já se vão
dezesseis anos do dia que eu entrei na minha escola de inglês pela primeira vez
e já são onze desde quando deixei de ser aluno e ainda assim eu consigo fechar
os olhos e andar por dentro dos dois andares dela sem perder nenhum detalhe.
As
portas que imitavam madeira corrida e o mesmo material que era usado nos
armários dentro da enorme recepção. Cada lasca do compensado que estava
faltando e os detalhes sempre intrigantes das pequenas placas com os números
das salas em cada porta. Da 201 à 212, eu fiz questão de entrar em cada uma
delas ao menos uma vez. Do chão com carpete no meu primeiro semestre às mesas
altíssimas do professor, onde ficava aquele pequeno Lesson Plan que eu sonhava
em poder olhar.
Todas
as infinitas tardes que eu passava dentro da escola, passando semanalmente umas
vinte vezes mais tempo do que minhas aulas exigiam de mim, nunca me escaparam
da cabeça. Ninguém conseguia entender o que para mim era completamente óbvio.
Logicamente eu jamais tive coragem para dizer em voz alta, mas foi a primeira
vez na vida que tive algum tipo de contato social positivo. E eu precisei de muitos
anos para conseguir isso.
Guardo
lá dentro minha primeira paixonite (eternamente registrada com a imagem daquela
época, pois já nos encontramos uns cinco anos atrás e senti toda aquela
primavera se murchando dentro de mim como uma invasão de dementadores, de tanto
estrago que o tempo havia feito àquele rosto tão belo) e os meus primeiros
sucessos. Guardo o nome de todos os professores (mas isso não é vantagem, acho
que lembro o nome de todos os professores em qualquer lugar, exceto, talvez, na
faculdade) e da equipe que tão bem me tratava.
Guardo
a frustração de ser educadamente barrado por não ser mais aluno e de não direcionar
a eles a culpa e o ressentimento, mas sim àquele que, mais uma vez, havia
falhado comigo. Lembro da inveja que me
corrompia diariamente a ver meus colegas na escola que ainda eram alunos com
seus livros e me oferecia, sem nem pensar duas vezes, a fazer todos os seus
deveres de casa, apenas para ter contato mais direto com o material mais uma
vez.
Guardo
a passagem do tempo, que trouxe a minha persistência e frustração em tentar
voltar ao ser impedido de ingressar o nível que desejava (e tinha nível) pela
única pessoa lá dentro que eu realmente nunca gostei. Tentei mais uma vez dois
anos depois, já como professor, mas fui barrado mais uma vez (pela mesma
pessoa. Adorável, não?)
Era
adorável ver como eu estava longe de ser o único. A aula começava às sete?
Alunos de três ou quatro turmas já estavam presentes às quatro e todos
conversavam como um grupo só. Se fosse dia de prova oral então, pode apostar
que tinha gente lá às três, estudando feito doidos e marcando o lugar na fila
para ser o primeiro e ir embora assim que possível (que ironia). Foram os dois
anos e meio mais felizes de uma fase que é tão difícil para tantas pessoas.
E
aqui estou, finalmente de volta a este universo que tanto me encanta. Não
exatamente de volta, pois moro a 1.600km de distância e estou entrando em outra
unidade. O curso infantil e juvenil, mantido intacto por mais de 40 anos,
finalmente fora reformulado e aos poucos está sendo substituído. Graças a Deus
eu tenho a chance de lecionar um livro que sempre sonhei ter na mão. E ele
ainda é o mesmo de sempre, começando na lição 109 e terminando na 120. Os novos
não possuem mais esta sequência enorme da 1 a 156, cada um começa na 1 e
termina na 12, mas isso não tem problema. Está tudo lá como sempre foi. A
diferença agora é que eu dependo apenas de mim mesmo para ficar. E não pretendo
sair.
Nenhum comentário:
Postar um comentário