segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre ainda ser Potterhead


Era uma vez uma quinta-feira qualquer em maio de 2009 (de acordo com o calendário ou era 7, 14, 21 ou 28) quando eu estava dando a pior aula da minha vida.

Eu não fazia ideia nem de qual deveria ser meu próximo passo em sala e, para minha enorme sorte, eu fui assistido pela coordenadora. Nunca duvidei da Lei de Murphy e aquele dia não seria diferente.

Junte TODAS as broncas que já levei da minha mãe e nem assim você vai chegar perto da hora que sucedeu aquela aula. Não lembro de tudo, mas estas frases ainda estão na minha cabeça quatro anos depois:

Você me pede pra te dar nível avançado, mas me prova que é incapaz de dar aula até pro básico”.

Eu não vou ter professor que não prepara aula na minha escola”.

Você já tem 21 anos. O menininho adolescente fã de Harry Potter tem que ficar pra trás”.

Então o marido dela, cansado por estar no trabalho mais de uma hora além do que deveria nos interrompeu para obrigá-la a fechar a escola e eu fui pra casa.

No dia seguinte, sexta-feita, eu não trabalhava (apenas uma das infinitas vantagens de ser professor em curso) e tudo o que havia ouvido perfurava minha mente de uma forma que eu não aguentava. Então eu precisava do meu melhor passatempo. Onde fui parar? Óbvio, dentro da Saraiva do Barra Shopping.

Eu sou tinhoso, confesso. Saí de casa com meu casaco de moletom preto com um enorme logotipo de “Harry Potter e o Cálice de Fogo” estampado no peito. Rodei dentro do Music Hall da Saraiva sem nem notar o que estava fazendo ou olhando pensando em tudo que havia ouvido e enxergando à minha frente a necessidade de ser realmente mais responsável. Fiquei tanto tempo andando em círculos que, se não fosse um cliente costumeiro da loja, já teria despertado a atenção dos seguranças.

Então eu decidi que seria o melhor professor que a coordenadora já havia contratado, mas eu não podia dar o braço a torcer daquela forma e aceitar simplesmente tudo que ela havia dito. Comprei o que estava na minha mão e fui correndo pra casa. Preparei a melhor aula da minha vida e não havia nada que pudesse dar errado dali pra frente. Mas uma decisão eu tomei naquele dia: eu jamais deixaria aquele Raphael pra trás.

Na manhã de sábado lá estava eu, pontualmente dentro de sala, feliz e sorridente com a minha turma. Sem nenhuma surpresa, eu fui assistido de novo. Dei, de fato, a melhor aula que ela já viu. Ao longo de três anos e meio eu fui realmente seu melhor professor.

Durante aquela aula, lá estava eu com o mesmo moletom de Harry Potter e o Cálice de Fogo.

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