Era uma vez
uma quinta-feira qualquer em maio de 2009 (de acordo com o calendário ou era 7,
14, 21 ou 28) quando eu estava dando a pior aula da minha vida.
Eu não
fazia ideia nem de qual deveria ser meu próximo passo em sala e, para minha
enorme sorte, eu fui assistido pela coordenadora. Nunca duvidei da Lei de
Murphy e aquele dia não seria diferente.
Junte TODAS
as broncas que já levei da minha mãe e nem assim você vai chegar perto da hora
que sucedeu aquela aula. Não lembro de tudo, mas estas frases ainda estão na
minha cabeça quatro anos depois:
“Você me
pede pra te dar nível avançado, mas me prova que é incapaz de dar aula até pro
básico”.
“Eu não vou
ter professor que não prepara aula na minha escola”.
“Você já
tem 21 anos. O menininho adolescente fã de Harry Potter tem que ficar pra
trás”.
Então o
marido dela, cansado por estar no trabalho mais de uma hora além do que deveria
nos interrompeu para obrigá-la a fechar a escola e eu fui pra casa.
No dia
seguinte, sexta-feita, eu não trabalhava (apenas uma das infinitas vantagens de
ser professor em curso) e tudo o que havia ouvido perfurava minha mente de uma
forma que eu não aguentava. Então eu precisava do meu melhor passatempo. Onde
fui parar? Óbvio, dentro da Saraiva do Barra Shopping.
Eu sou
tinhoso, confesso. Saí de casa com meu casaco de moletom preto com um enorme
logotipo de “Harry Potter e o Cálice de Fogo” estampado no peito. Rodei dentro
do Music Hall da Saraiva sem nem notar o que estava fazendo ou olhando pensando
em tudo que havia ouvido e enxergando à minha frente a necessidade de ser
realmente mais responsável. Fiquei tanto tempo andando em círculos que, se não
fosse um cliente costumeiro da loja, já teria despertado a atenção dos
seguranças.
Então eu
decidi que seria o melhor professor que a coordenadora já havia contratado, mas
eu não podia dar o braço a torcer daquela forma e aceitar simplesmente tudo que
ela havia dito. Comprei o que estava na minha mão e fui correndo pra casa.
Preparei a melhor aula da minha vida e não havia nada que pudesse dar errado
dali pra frente. Mas uma decisão eu tomei naquele dia: eu jamais deixaria
aquele Raphael pra trás.
Na manhã de
sábado lá estava eu, pontualmente dentro de sala, feliz e sorridente com a
minha turma. Sem nenhuma surpresa, eu fui assistido de novo. Dei, de fato, a
melhor aula que ela já viu. Ao longo de três anos e meio eu fui realmente seu
melhor professor.
Durante
aquela aula, lá estava eu com o mesmo moletom de Harry Potter e o Cálice de
Fogo.
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