Se tem uma coisa que eu sempre admirei muito na minha personalidade é a habilidade de reconhecer que algo está me fazendo mal e que está na hora de tirar da minha vida. Claro, nem tudo é fácil de tirar e às vezes falta muita força para arrancar este carrapato da alma.
Há uns cinco anos eu escrevi sobre a relação de maior sofrimento da minha vida, a que eu tenho com os meus aniversários. Eu fiz um relato compreensivo de como quanto mais eu esperava de um aniversário, mais ele me decepcionava. E terminei expressando minhas esperanças para celebrar 26 anos. Obviamente eu não aprendo nem a curto prazo.
Vamos seguir a linha do tempo que eu comecei em 2006 e vamos ver no que deu.
26 de fevereiro de...
2014: Era o começo do que eu vou chamar de annus horribilis. Desemprego, fome, término, comportamento suicida, tudo. E no começo dele meu aniversário gasto em sua maioria no que é o pior emprego que eu tive até agora. Estou falando de pessoas me desejando parabéns dizendo que eu estava mais perto da morte. Gente ridícula. Foi também meu primeiro aniversário com o Rapha. Ele fez de tudo para que eu tivesse o melhor aniversário da minha vida. Na visão dele. Casa cheia, muita conversa. Naquele dia eu lembrei o aniversário de 1994 quando minha mãe me ensinou a apreciar o esforço das pessoas e ser grato. Senti saudades do tatu.
2015: Isto também vai passar. Foi pouco antes de fazer 27 que passei a adotar este pensamento quase como religião e o cultivo até hoje. Pouco antes do meu aniversário minha vida parecia que ia finalmente começar a se acertar e, quem diria, eu estava tendo um fim dos 20 bem melhores do que o começo. O dia em si foi em casa, sem convidados e com presentes especiais (que eu mesmo escolhi, impossível errar). Foi a prova derradeira que eu de fato precisava parar de me importar com os meus aniversários e que eles só seriam sobrevivíveis se eu não pensasse neles.
2016: Chuva e calor. Primeiro dia de aula. Eu não sabia, mas Rapha estava preparando alguma coisa legal pra domingo. Era surpresa. A surpresa envolvia fingir que ele não tinha feito nada de fato para o dia. Tadinho, fiquei uma arara com ele. Ele ali aprendeu que eu não tinha amigos o suficiente para uma festa e que um aniversário feliz, então, era cheio de presentes. No fim das contas foi um aniversário muito bom. E uma das minhas turmas favoritas fez festa surpresa pra mim na aula. Foi muito legal.
2017: Poucos e bons amigos e um dia bem leve. Na verdade, os 2 últimos aniversários foram os melhores dos meus 20 anos. Rapha e eu já tínhamos nosso trato de que cada um cuida do aniversário do outro, então eu realmente pude pôr em prática deixar meu aniversário de lado e aproveitar ele. Sem contar que ganhei uns presentes bons pra caralho.
2018: Eu sei que a data ainda não chegou, mas eu optei por deixar ela passar em branco. A princípio eu queria uma festa em salão, eu nunca tive e sempre sonhei em ter. E 30 sempre me pareceu a última idade em que eu ia me importar com isso, pois eu já não me importo muito, então tenho quase certeza que aos 40 eu de fato não vou ligar. Eu tinha elaborado uma festa legal. Poucas pessoas, acho que não chegava a 40. Sei que eram 30 convites. Seria apenas uma mesa gigante em formato de pentágono, com cada lado decorado com algo que eu gosto (Harry Potter, Vinil, Doctor Who, Celine Dion, Design Gráfico) e uma pista de dança. Então eu percebi que a vida está indo em caminhos contrários e que não faz sentido desprender do valor de um salão para não comportar nem 40 pessoas. Sem contar todo o resto, então dentro de mim eu vi essa comemoração afundando e não deixando nada no lugar. Por isso optei pelo extremo oposto. Será de novo na primeira semana de aulas, sem contar que eu tenho provas de Fundamentos Filosóficos da Educação e Filosofia da Educação no dia. Então os planos para a data serão fazer provas de manhã, dar aulas à tarde e voltar para casa no fim do dia, como qualquer segunda-feira. Resolvi deixar a alegria da comemoração para os anos em que eu me importava com ela, então que fique apenas na lembrança. Para tal eu optei por renegar tudo: festa, cumprimentos, presentes, mensagens e qualquer outra coisa. Espero navegar bem pelo dia e espero não ter que dizer "please, no" para ninguém.
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"Baby, I hate days like this"