sábado, 23 de março de 2013

Confiança

Uma vez à toa ela me chama e diz "não conta pra ninguém, mas minha menstruação tá atrasada mais de um mês e eu já estou pra perder o segundo ciclo". Minha resposta foi o motivo de ter sido procurado em "segunda-mão":

- Não crie uma expectativa que vai te magoar se não acontecer. Não pense em nada, espere amanhecer e compre um teste de farmácia e faça um exame de sangue.

Três dias depois eu descobri que seria tio.

A família inteira vibrou de expectativa. Afinal era a primeira criança que nasceria depois de mim, e nós estamos falando de um intervalo de vinte e três anos.

Todos vibravam, menos eu. Por favor, não pense que eu não estava empolgado. Eu adoraria estar, mas eu não podia.

Entenda: eu fui procurado em "segunda-mão", pois apenas o marido dela sabia que seria pai antes que eu soubesse e, por mais amor e confiança e respeito que você possa imaginar ser o motivo, o que de fato levou a tal acontecimento foi simples:

"Eu te contei porque eu sabia que você ia ser racional e eu precisava disso mais do que a alegria da possibilidade."

Então eu precisei ser racional. Primeira gravidez aos 33 anos com considerável sobre-peso e condições cardíacas nada favoráveis. No meio disso tudo estava a pessoa que eu mataria para defender.

Eu sempre cumpri minha parte. Fui o primeiro a comprar presente, até mesmo antes da própria gestante (baby hug-a-bible e My First English Dictionary) e mandei o trabalho pro espaço no dia que ela nasceu para ir ao hospital. Mas eu não podia perder o foco. Eu não podia deixar transparecer toda a preocupação que me consumia a cada instante.

Ela nasceu antes da hora, por falência da pressão uterina. Nenhuma complicação ou sequela para nenhuma das duas, mas nove meses de expectativa me foram roubados e me afastaram do restante da família, que preferia não entender por que aparentemente eu não estava empolgado em ter uma sobrinha. Claro que eu estava. E ouvir isso só piorava tudo.

A compensação não tardou a chegar. Ela tem por mim um carinho que foi passado pelo sangue dentro do útero, isso sem contar o talento para ser anti-social e irritante ao corrigir todos ao redor (isso sem contar que os olhos estão ficando cada dia mais parecidos com os meus!). A alegria me invade toda vez que ela estende os braços pra mim, mas falta algo.

E vai faltar sempre, mas não tem problema. Foi por uma boa causa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre ainda ser Potterhead


Era uma vez uma quinta-feira qualquer em maio de 2009 (de acordo com o calendário ou era 7, 14, 21 ou 28) quando eu estava dando a pior aula da minha vida.

Eu não fazia ideia nem de qual deveria ser meu próximo passo em sala e, para minha enorme sorte, eu fui assistido pela coordenadora. Nunca duvidei da Lei de Murphy e aquele dia não seria diferente.

Junte TODAS as broncas que já levei da minha mãe e nem assim você vai chegar perto da hora que sucedeu aquela aula. Não lembro de tudo, mas estas frases ainda estão na minha cabeça quatro anos depois:

Você me pede pra te dar nível avançado, mas me prova que é incapaz de dar aula até pro básico”.

Eu não vou ter professor que não prepara aula na minha escola”.

Você já tem 21 anos. O menininho adolescente fã de Harry Potter tem que ficar pra trás”.

Então o marido dela, cansado por estar no trabalho mais de uma hora além do que deveria nos interrompeu para obrigá-la a fechar a escola e eu fui pra casa.

No dia seguinte, sexta-feita, eu não trabalhava (apenas uma das infinitas vantagens de ser professor em curso) e tudo o que havia ouvido perfurava minha mente de uma forma que eu não aguentava. Então eu precisava do meu melhor passatempo. Onde fui parar? Óbvio, dentro da Saraiva do Barra Shopping.

Eu sou tinhoso, confesso. Saí de casa com meu casaco de moletom preto com um enorme logotipo de “Harry Potter e o Cálice de Fogo” estampado no peito. Rodei dentro do Music Hall da Saraiva sem nem notar o que estava fazendo ou olhando pensando em tudo que havia ouvido e enxergando à minha frente a necessidade de ser realmente mais responsável. Fiquei tanto tempo andando em círculos que, se não fosse um cliente costumeiro da loja, já teria despertado a atenção dos seguranças.

Então eu decidi que seria o melhor professor que a coordenadora já havia contratado, mas eu não podia dar o braço a torcer daquela forma e aceitar simplesmente tudo que ela havia dito. Comprei o que estava na minha mão e fui correndo pra casa. Preparei a melhor aula da minha vida e não havia nada que pudesse dar errado dali pra frente. Mas uma decisão eu tomei naquele dia: eu jamais deixaria aquele Raphael pra trás.

Na manhã de sábado lá estava eu, pontualmente dentro de sala, feliz e sorridente com a minha turma. Sem nenhuma surpresa, eu fui assistido de novo. Dei, de fato, a melhor aula que ela já viu. Ao longo de três anos e meio eu fui realmente seu melhor professor.

Durante aquela aula, lá estava eu com o mesmo moletom de Harry Potter e o Cálice de Fogo.

25

E então a gente faz 25.

É estranho, não é? A gente não é adolescente faz tempo, mas ainda não é exatamente adulto. Estou nesse meio do caminho que não consigo entender direito, onde ainda posso dizer que tenho a vida toda pela frente, mas já tenho uma coleção considerável de memórias que me trazem tanto alegria quanto arrependimento.

A aceitação de que tudo tem um fim bate com uma força inexplicável. Os ataques de pânico toda vez que penso que irei um dia fechar os olhos para nunca mais abri-los (espero poder fechá-los) e deixar para trás tudo pelo qual já lutei se cessaram imediatamente simplesmente porque eu já não sou mais tão jovem.

E é isso que faz a diferença, certo? Por mais no meio que esteja, estou mais perto de fazer 30 anos do que estou do dia que fiz 20 e eu tenho certeza que a indiferença ou pavor que você está sentindo agora vai depender da sua idade.

Como é curioso o que um número pode fazer com a sua cabeça.

Tão curioso que precisei de mais de dez minutos para passar da frase acima.

Nosso cérebro precisa acreditar em algo. O senso de propósito é o que nos dá força para continuar dia após dia. Vejo o sol nascer pela janela agora e isso me põe a pensar. A pior pergunta que aprendemos na nossa vida é “pra que?”.

Note que não é por que. Não nos mata querer encontrar um motivo em alguma ação, isso nos impulsiona. Mas quando nos indagamos sobre a finalidade de nossos atos, aceite este conselho, é bom você encontrar uma logo.

Ou às vezes o que a gente precisa é realmente não encontrar nenhuma. Só assim teremos força para saber que precisamos ir em frente. “Pra que estou em Goiânia?” Sim, eu sei a resposta, por isso ainda estou aqui. “Pra que eu me submetia ao emprego que eu tinha?” Nunca encontrei um propósito e, quando nem a wi-fi grátis era motivo pra continuar, eu encarei o nada, pois como diz Madonna “não tenho medo do que vou enfrentar, mas tenho medo de ficar”.

Até o dia que fiz 25, minha vida foi completa de mudanças de todos os tipos. A cada aniversário eu era uma pessoa diferente. Não sei se esta fase já acabou (acho que nunca acaba), mas eu nem sequer tento imaginar como será meu 26º aniversário.

De uma coisa eu sei: eu espero por ele desde que tinha 7 anos, afinal vou fazer 26 anos no dia 26 e isso deixa a criança dentro de mim bastante feliz!

16 anos esperando por hoje. E eu tive insônia!

Desde quando comecei a lecionar a língua inglesa eu soube que uma boa escola era aquela que dava total atenção a suas crianças. A criança se fideliza mais do que qualquer adulto e ela vai ficar na sua escola por mais tempo.

E eu sempre tive minha própria experiência para afirmar tal teoria. Já se vão dezesseis anos do dia que eu entrei na minha escola de inglês pela primeira vez e já são onze desde quando deixei de ser aluno e ainda assim eu consigo fechar os olhos e andar por dentro dos dois andares dela sem perder nenhum detalhe.

As portas que imitavam madeira corrida e o mesmo material que era usado nos armários dentro da enorme recepção. Cada lasca do compensado que estava faltando e os detalhes sempre intrigantes das pequenas placas com os números das salas em cada porta. Da 201 à 212, eu fiz questão de entrar em cada uma delas ao menos uma vez. Do chão com carpete no meu primeiro semestre às mesas altíssimas do professor, onde ficava aquele pequeno Lesson Plan que eu sonhava em poder olhar.

Todas as infinitas tardes que eu passava dentro da escola, passando semanalmente umas vinte vezes mais tempo do que minhas aulas exigiam de mim, nunca me escaparam da cabeça. Ninguém conseguia entender o que para mim era completamente óbvio. Logicamente eu jamais tive coragem para dizer em voz alta, mas foi a primeira vez na vida que tive algum tipo de contato social positivo. E eu precisei de muitos anos para conseguir isso.

Guardo lá dentro minha primeira paixonite (eternamente registrada com a imagem daquela época, pois já nos encontramos uns cinco anos atrás e senti toda aquela primavera se murchando dentro de mim como uma invasão de dementadores, de tanto estrago que o tempo havia feito àquele rosto tão belo) e os meus primeiros sucessos. Guardo o nome de todos os professores (mas isso não é vantagem, acho que lembro o nome de todos os professores em qualquer lugar, exceto, talvez, na faculdade) e da equipe que tão bem me tratava.

Guardo a frustração de ser educadamente barrado por não ser mais aluno e de não direcionar a eles a culpa e o ressentimento, mas sim àquele que, mais uma vez, havia falhado comigo. Lembro da  inveja que me corrompia diariamente a ver meus colegas na escola que ainda eram alunos com seus livros e me oferecia, sem nem pensar duas vezes, a fazer todos os seus deveres de casa, apenas para ter contato mais direto com o material mais uma vez.

Guardo a passagem do tempo, que trouxe a minha persistência e frustração em tentar voltar ao ser impedido de ingressar o nível que desejava (e tinha nível) pela única pessoa lá dentro que eu realmente nunca gostei. Tentei mais uma vez dois anos depois, já como professor, mas fui barrado mais uma vez (pela mesma pessoa. Adorável, não?)

Era adorável ver como eu estava longe de ser o único. A aula começava às sete? Alunos de três ou quatro turmas já estavam presentes às quatro e todos conversavam como um grupo só. Se fosse dia de prova oral então, pode apostar que tinha gente lá às três, estudando feito doidos e marcando o lugar na fila para ser o primeiro e ir embora assim que possível (que ironia). Foram os dois anos e meio mais felizes de uma fase que é tão difícil para tantas pessoas.

E aqui estou, finalmente de volta a este universo que tanto me encanta. Não exatamente de volta, pois moro a 1.600km de distância e estou entrando em outra unidade. O curso infantil e juvenil, mantido intacto por mais de 40 anos, finalmente fora reformulado e aos poucos está sendo substituído. Graças a Deus eu tenho a chance de lecionar um livro que sempre sonhei ter na mão. E ele ainda é o mesmo de sempre, começando na lição 109 e terminando na 120. Os novos não possuem mais esta sequência enorme da 1 a 156, cada um começa na 1 e termina na 12, mas isso não tem problema. Está tudo lá como sempre foi. A diferença agora é que eu dependo apenas de mim mesmo para ficar. E não pretendo sair.