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sábado, 2 de novembro de 2013

Das lembranças e dos desejos

Que coisa estranha é essa de ser pai. Quando é que somos pais? E como escolhemos um pai? Eu nunca consegui associar aquela ideia do super herói que não tem medo de nada e qie sempre estaria ali para garantir que eu fosse o menino mais feliz do mundo a um pai.

Figuras paternas são, no mínimo, uma aversão na minha vida. A vida me deu três e se tem algo em comum entre eles é que nenhum dos três deveria ter procriado.

Vamos ao mais óbvio e mais obtuso de todos: o original e biológico. Eternamente apaixonado por sua ex esposa e babão por sua princesa, nunca...

Às vezes eu acho que nasci de intruso.

Uma vez eu li que os dois maiores momentos da nossa vida são quando a gente nasce e quando a gente descobre a finalidade.

O segundo deles é a minha maior relação de amor e ódio, e eu não sei definir como está agora.

Então sobra você, que achou legal ser meu pai aos olhos de Deus quando tinha apenas 10 anos. Não passou pela cabeça de ninguém que você estava entrando na adolescência e o que menos queria era um menino que te idolatrava na sua cola. Totalmente compreensível.

Você me deu um presente no meu décimo-quarto aniversário e parece que nada mais importava. Eu ainda achava você o cara mais legal do mundo.

Eu te vi em março desse ano depois de 4 anos do nosso último contato. E em 2 dias você será pai.

Por favor, seja um bom pai.

"Don't play with something you should cherish for life".

domingo, 11 de agosto de 2013

Eu o amo. Ele me odeia. Até quando?

Eu sempre amei meus aniversários. Acho que essa é definitivamente a pior, mais dolorosa, mais absurdamente longa e menos correspondida relação que eu já tive/tenho. A pior parte é que a grande filosofia de vida de aprender com os próprios erros parece que em nada se aplica a este caso. Venho desde o 22º dizendo para mim mesmo que o segredo é não ter expectativa alguma e agradecer o que ocorrer. Então vamos na ordem?

Eu nunca de fato tive um grande aniversário, mas nunca fiz tanta questão. É bem verdade que as comemorações enquanto terminava minha infância e começava minha adolescência deixaram bem claro o quanto eu era desprovido de qualquer contato social e afirmaram que os anos escolares seriam de longe os piores neste aspecto, mas isso nunca me atrapalhou em ficar feliz.

Entenda que a relação de amor de mim para meus aniversários e de ódio dos meus aniversários para mim não tem aparentemente nada a ver com o fato de estar envelhecendo e todo o grande e intragável desafio que tanto aparece na minha cabeça. A questão é simplesmente o poder que uma data pela qual eu tenho tanto carinho consegue sempre me dar um golpe maior a cada ano.

Aos 17 eu tive a minha segunda "festa" de aniversário. Um belo painel acompanhado de toda uma decoração e até hoje o meu aniversário favorito. Por ironia o último bom. Então voltemos à ordem.

26 de fevereiro de...

2006 - 18º aniversário num domingo de carnaval - o que pedia para ser a maior festa que eu já vi acabou se tornando um dia no Barra Shopping indo ao cinema. Destaque para o esforço magnífico da minha mãe e da minha avó em garantir que eu gostasse do dia. Eu até gostei. Mas se não fosse o bolo que nós 3 comemos sozinhos em casa ao retornar, nada mudaria de um domingo qualquer no shopping.

2007 - Várias vezes minha irmã não passou meu aniversário comigo por ser carnaval e ela estar viajando com o namorado. Mas não era carnaval. Foi meu primeiro aniversário depois que ela se casou. 3 meses separaram as duas datas. Uma briga dela com minha mãe por telefone foi o motivo da decisão de não aparecer. Ela tinha algum dinheiro para dar à minha mãe pelo pagamento de sabe-se lá o que. Então fui eu encarar ônibus e engarrafamento para ir ao centro buscar o valor e aproveitar a oportunidade para que ela me visse. Uma lembrança feliz: minha mãe comprou vários presentes e os espalhou pela casa toda e eu tive que catá-los.

2008 - 2 décadas completas e eu me sentia o "adulto". De longe foi o aniversário mais "social" que eu tive, com comemoração surpresa no trabalho e até no grupo da igreja. Por outro lado a minha falta de talento para reunir os parentes com quem me importava no dia do meu aniversário foi tanta que eu tive um total de 6 comemorações. Não me pergunte o motivo, mas não consigo considerar isso positivo. Foi a última vez que tive um bolo de aniversário. E não até o último mês eu percebi ou me importei com isso.

2009 - Má colocação de datas e eventos. Foi uma noite na verdade bem agradável, não fosse ter sido o mesmo dia que minha mãe percebeu que o filho dela não ia voltar pro armário. Enquanto todos se divertiam numa bela noite no Porcão (a única vez que fui lá), nada na verdade tinha graça.

2010 - Quem diria, eu voltaria a namorar uma mulher. Ao menos serviu para que todos vissem que namorar uma mulher definitivamente não é o segredo para minha felicidade. Estar com ela atrapalhou simplesmente todos os planos que eu tive para aquele dia, mantendo afastado até algumas amigas de coração que preferiram não ir a me causar brigas subsequentes por ciúmes. Lembrança feliz: minha mãe vendo mais um aniversário sendo arruinado, mais uma vez compensou no presente.

2011 - Fazer 23 anos e perceber que não se é mais tão jovem assim quanto já fui um dia foi o de menos. Eu tinha um relacionamento estável e era completamente apaixonado. Dividi o dia em 2 partes: um almoço em família e um jantar com teatro com namorado. Teria tudo sido simplesmente perfeito, não fosse a minha incrível habilidade de interpretar a reação a mim daqueles ao meu redor. Ali no teatro eu soube, mesmo sem nada dito ou feito: ele não me amava mais. Levei o quanto pude e consegui lutar por mais cinco meses. De qualquer forma, mais um aniversário que por fora estava maravilhoso, mas dentro do peito estava tudo desmoronado.

2012 - Brinquei com todos que podia que tinha um ano pra "aviadar" de vez e chegar à minha forma final. O último dia de carnaval e dia seguinte da festa de 1 ano da minha sobrinha. Eu tinha feito um belo dum cheesecake (não vale como bolo de aniversário, principalmente por eu mesmo tê-lo feito) na véspera antes de ir pra festa. Churrasco em casa com todos absurdamente cansados e à noite fui ver o cara com quem estava saindo pelos dois últimos meses. Aniversário com acompanhante num apartamento vazio deveria significar horas de sexo selvagem, mas o meu plano estava ameaçado pela frase "transei com dois caras durante a semana, dei pra um deles e estou ainda meio ardido". Cara, na boa, era meu aniversário. Eu precisava mesmo ouvir isso? Era a porra do meu aniversário, caralho! Foda-se que eu não era teu namorado, seu merda. Você tinha ao menos a obrigação de ser sensato, seu viadinho escroto. Fiz minha parte muito bem, banquei o compreensivo e que o perdoava. O fiz chorar de arrependimento. Nunca fui ativo com tanta agressividade na minha vida. saí de lá no dia seguinte cantando "Smile". Nunca mais o vi. Hoje ele namora e com frequência curte postagens aleatórias minhas e faz comentários de múltiplos sentidos. Estou a um passo de mandá-lo lamber uma boceta.

2013 - Nada como aprender a maior lição de vida este ano: "É na dificuldade que vemos quem realmente gosta da gente". Meu ex decidiu ficar a manhã comigo, já que não havia conseguido folga no trabalho. Ele dormiu a manhã toda e ainda brigou comigo por ter tentado acordá-lo para aproveitar a manhã. Como sempre confundiu ficar junto com sexo e com um berro de "não vou transar hoje" (como se ele transasse algum dia), virou pro lado e dormiu. Foi trabalhar e fiquei em casa a 1600km de distância de quem amava de verdade. Fui a um rodízio japonês só para dizer que fiz alguma coisa. Foi de longe o pior aniversário que já tive, a cada segundo dele.

Desde 1995 eu sonho com meu aniversário de 2014. Farei 26 anos dia 26 e sempre esperei por isso. Só de pensar eu fico feliz. Acho que já deveria ter aprendido, não?

"I wanna be big and let go of this grudge that's grown old."

sábado, 23 de março de 2013

Confiança

Uma vez à toa ela me chama e diz "não conta pra ninguém, mas minha menstruação tá atrasada mais de um mês e eu já estou pra perder o segundo ciclo". Minha resposta foi o motivo de ter sido procurado em "segunda-mão":

- Não crie uma expectativa que vai te magoar se não acontecer. Não pense em nada, espere amanhecer e compre um teste de farmácia e faça um exame de sangue.

Três dias depois eu descobri que seria tio.

A família inteira vibrou de expectativa. Afinal era a primeira criança que nasceria depois de mim, e nós estamos falando de um intervalo de vinte e três anos.

Todos vibravam, menos eu. Por favor, não pense que eu não estava empolgado. Eu adoraria estar, mas eu não podia.

Entenda: eu fui procurado em "segunda-mão", pois apenas o marido dela sabia que seria pai antes que eu soubesse e, por mais amor e confiança e respeito que você possa imaginar ser o motivo, o que de fato levou a tal acontecimento foi simples:

"Eu te contei porque eu sabia que você ia ser racional e eu precisava disso mais do que a alegria da possibilidade."

Então eu precisei ser racional. Primeira gravidez aos 33 anos com considerável sobre-peso e condições cardíacas nada favoráveis. No meio disso tudo estava a pessoa que eu mataria para defender.

Eu sempre cumpri minha parte. Fui o primeiro a comprar presente, até mesmo antes da própria gestante (baby hug-a-bible e My First English Dictionary) e mandei o trabalho pro espaço no dia que ela nasceu para ir ao hospital. Mas eu não podia perder o foco. Eu não podia deixar transparecer toda a preocupação que me consumia a cada instante.

Ela nasceu antes da hora, por falência da pressão uterina. Nenhuma complicação ou sequela para nenhuma das duas, mas nove meses de expectativa me foram roubados e me afastaram do restante da família, que preferia não entender por que aparentemente eu não estava empolgado em ter uma sobrinha. Claro que eu estava. E ouvir isso só piorava tudo.

A compensação não tardou a chegar. Ela tem por mim um carinho que foi passado pelo sangue dentro do útero, isso sem contar o talento para ser anti-social e irritante ao corrigir todos ao redor (isso sem contar que os olhos estão ficando cada dia mais parecidos com os meus!). A alegria me invade toda vez que ela estende os braços pra mim, mas falta algo.

E vai faltar sempre, mas não tem problema. Foi por uma boa causa.

sábado, 3 de novembro de 2012

O maior dos problemas

Aos 16 eu entendi o que significava ser mortal. Com sorte fechar seus olhos e nunca mais abri-los. Eu nunca soube lidar com isso. Não adianta falar que é inevitável pois é apenas isso que eu entendo. E é exatamente isso que me põe neste estado.

Sabe, um grande defeito meu é sempre conseguir aquilo que almejo, seja cedo ou tarde.

Hoje eu espero viver o bastante para desejar, em alguma hora, de fato deixar este corpo.

Aos 21 eu soube como era a sensação de "sair de você". Foi um desmaio breve, mas a última consciência gravada na memória foi me agarrar a quem estava do meu lado e implorar que me segurasse. Eu ainda não sabia aceitar o que não podia mudar.

Quando estava sentado naquela sala com mais 40 adolescentes e uma professora idosa que explicava genética, olhando para o jabuti na capa de algum livro emprestado que estava na minha mesa eu experimentei pela primeira vez o que é o verdadeiro pânico. É algo tão pavoroso que você se controla para não berrar. Compreender uma verdade que você sabe que vai te acertar apenas numa questão de tempo muda completamente o seu raciocínio. A pior parte disso é perceber que se trata de algo tão íntimo, tão interno, que nenhuma das 41 pessoas ao seu redor sequer nota que há algo errado com você.

Dizer que revivo este momento é uma forma tão branda de tratar esta memória que chega a ser um insulto. De fato, ela me assombra quase diariamente, pelo menos já tirei muita coisa boa dela. A principal foi a compreensão de que cada um tem direito à sua dor, mas vou falar mais sobre isso depois.

O importante é dizer que, ao mesmo tempo que realmente entendi que ninguém dura pra sempre, a única ideia que me ocorreu foi a de fazer algo tão estrondosamente incrível que pelo menos meu nome e minha memória sejam lembrados. Que o mundo saiba quem eu sou, ou quem eu fui.

Às vezes essa fé de deixar uma marca oscila, principalmente quando percebemos que não conseguimos nem influenciar quem nos rodeia. Quando vemos que nos rejeitam antes de nos olharem. 

Mas ainda assim tenho fé que um dia vou conseguir.

"I was here. I lived. I loved."