Uma vez à toa ela me chama e diz "não conta pra ninguém, mas minha menstruação tá atrasada mais de um mês e eu já estou pra perder o segundo ciclo". Minha resposta foi o motivo de ter sido procurado em "segunda-mão":
- Não crie uma expectativa que vai te magoar se não acontecer. Não pense em nada, espere amanhecer e compre um teste de farmácia e faça um exame de sangue.
Três dias depois eu descobri que seria tio.
A família inteira vibrou de expectativa. Afinal era a primeira criança que nasceria depois de mim, e nós estamos falando de um intervalo de vinte e três anos.
Todos vibravam, menos eu. Por favor, não pense que eu não estava empolgado. Eu adoraria estar, mas eu não podia.
Entenda: eu fui procurado em "segunda-mão", pois apenas o marido dela sabia que seria pai antes que eu soubesse e, por mais amor e confiança e respeito que você possa imaginar ser o motivo, o que de fato levou a tal acontecimento foi simples:
"Eu te contei porque eu sabia que você ia ser racional e eu precisava disso mais do que a alegria da possibilidade."
Então eu precisei ser racional. Primeira gravidez aos 33 anos com considerável sobre-peso e condições cardíacas nada favoráveis. No meio disso tudo estava a pessoa que eu mataria para defender.
Eu sempre cumpri minha parte. Fui o primeiro a comprar presente, até mesmo antes da própria gestante (baby hug-a-bible e My First English Dictionary) e mandei o trabalho pro espaço no dia que ela nasceu para ir ao hospital. Mas eu não podia perder o foco. Eu não podia deixar transparecer toda a preocupação que me consumia a cada instante.
Ela nasceu antes da hora, por falência da pressão uterina. Nenhuma complicação ou sequela para nenhuma das duas, mas nove meses de expectativa me foram roubados e me afastaram do restante da família, que preferia não entender por que aparentemente eu não estava empolgado em ter uma sobrinha. Claro que eu estava. E ouvir isso só piorava tudo.
A compensação não tardou a chegar. Ela tem por mim um carinho que foi passado pelo sangue dentro do útero, isso sem contar o talento para ser anti-social e irritante ao corrigir todos ao redor (isso sem contar que os olhos estão ficando cada dia mais parecidos com os meus!). A alegria me invade toda vez que ela estende os braços pra mim, mas falta algo.
E vai faltar sempre, mas não tem problema. Foi por uma boa causa.
Correção: vc não foi procurado de segunda-mão, antes mesmo do marido saber da aunsência da menstruação, vc ficou ciente da dúvida. Vc foi a PRIMEIRA pessoa a saber da minha desconfiança, e só não foi o primeiro a saber da certeza, depois do marido, porque seu celular estava dando fora da área, provavelmente estava em aula. Vc é meu bebezão, meu filho, como o pessoal do meu antigo trabalho te chamava quando vc me ligava. Vc me faz muita falta, estar tão longe assim me faz muito mal. Ela fala de vc todos os dias, o tempo todo, quer te ligar, fica me mostrando os presentes que vc deu a ela, e os que não foi vc, ela diz que foi e pronto. É o Tio Phael, Tio Raphael ou Ray, como só ela te chama, como vc disse: é amor passado pelo sangue, pelo útero. Sei que ela te ama tanto quanto eu, e o mais importante é que vc sabe disso. Agora, só não sei o que falta. Poderia me dizer?
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